Sedação no Transporte Aéreo Internacional de Cães e Gatos: Riscos e Alternativas para Redução do Estresse
Sedation in International Air Transport of Dogs and Cats: Risks and Alternatives for Stress Reduction
Daniel Pinto Coelho Martins de Oliveira¹
1 Transporte Pet Internacional – Nova Lima – MG – Brasil. ORCID: https://orcid.org/my-orcid?orcid=0009-0000-8413-3449
Resumo
O transporte aéreo de cães e gatos evoluiu nas últimas décadas, acompanhado por maior atenção às condições de transporte, ao comportamento e ao bem-estar dos animais durante a jornada. Estudos e a experiência acumulada passaram a demonstrar limitações e riscos relacionados ao uso de sedativos e tranquilizantes como forma de controle comportamental durante viagens aéreas. Como consequência, entidades de referência no transporte aéreo e no transporte internacional de animais, como a International Air Transport Association (IATA) e a International Pet and Animal Transportation Association (IPATA), passaram a desaconselhar a sedação rotineira, especialmente devido aos possíveis efeitos sobre equilíbrio, capacidade de resposta, sistemas cardiovascular e respiratório e termorregulação. Paralelamente, novas estratégias passaram a ser utilizadas para reduzir medo, ansiedade e estresse sem depender da sedação como primeira medida. Este artigo tem como objetivo analisar os principais riscos relacionados à sedação no transporte aéreo de cães e gatos e apresentar alternativas para o manejo do estresse durante a viagem. Foi realizada revisão da literatura científica e de diretrizes relacionadas ao transporte e ao manejo comportamental de animais de companhia. A preparação prévia, incluindo adaptação à caixa ou bolsa de transporte, condicionamento, dessensibilização e manejo adequado, constitui a base dessa abordagem. Quando necessário, podem ser associados feromônios, nutracêuticos, fitoterápicos, aromaterapia, homeopatia, florais e, sob orientação médico-veterinária, medicamentos com finalidade ansiolítica. Conclui-se que a redução do estresse no transporte aéreo deve priorizar preparação antecipada, avaliação individual e planejamento da jornada, integrando conhecimento médico-veterinário, comportamento animal e condições reais do transporte.
Palavras-chave: transporte aéreo de animais; sedação; estresse; ansiedade; bem-estar animal.
Abstract
Air transport of dogs and cats has evolved in recent decades, accompanied by increased attention to transport conditions, animal behavior, and welfare throughout the journey. Studies and accumulated experience have demonstrated limitations and risks associated with the use of sedatives and tranquilizers for behavioral control during air travel. As a result, reference organizations in air transport and international animal transportation, such as the International Air Transport Association (IATA) and the International Pet and Animal Transportation Association (IPATA), have come to discourage routine sedation, particularly because of its potential effects on balance,
responsiveness, cardiovascular and respiratory function, and thermoregulation. At the same time, different strategies have received increasing attention as alternatives for reducing fear, anxiety, and stress without relying on sedation as the first approach. This article aims to analyze the main risks associated with sedation during air transport of dogs and cats and to present alternatives for stress management during travel. A review of the scientific literature and guidelines related to transportation and behavioral management of companion animals was conducted. Prior preparation, including adaptation to the crate or carrier, conditioning, desensitization, and appropriate handling, forms the basis of this approach. When necessary, pheromones, nutraceuticals, herbal products, aromatherapy, homeopathy, flower essences, and, under veterinary guidance, medications intended for anxiolysis may be associated. It is concluded that stress reduction during air transport should prioritize advance preparation, individual assessment, and journey planning, integrating veterinary knowledge, animal behavior, and actual transport conditions.
Keywords: animal air transport; sedation; stress; anxiety; animal welfare.
1 Introdução
O transporte aéreo de cães e gatos tornou-se uma realidade cada vez mais presente, acompanhando mudanças na relação entre pessoas e animais de companhia e o aumento das viagens e relocações nacionais e internacionais. Paralelamente, cresceram as preocupações relacionadas ao bem-estar dos animais durante essas jornadas e à necessidade de compreender os fatores capazes de provocar medo, ansiedade e estresse antes, durante e após o transporte.
A viagem aérea não se limita ao período de voo. Preparação, deslocamento até o aeroporto, check-in ou aceitação, espera, handling, embarque, voo, conexões, desembarque e procedimentos sanitários ou aduaneiros fazem parte da jornada. Essas condições variam conforme a modalidade de transporte e podem expor o animal a ambientes desconhecidos, confinamento, ruídos, movimentação, alterações de rotina e separação do tutor.
Durante muitos anos, sedativos e tranquilizantes foram utilizados com a intenção de facilitar o transporte e reduzir manifestações comportamentais associadas ao medo e à ansiedade. Entretanto, estudos e a experiência acumulada no transporte de animais passaram a demonstrar limitações e riscos relacionados a essa prática. Alterações de equilíbrio, postura, capacidade de resposta, termorregulação e funções cardiovascular e respiratória assumem particular importância durante o transporte aéreo, principalmente quando o animal permanece sem observação direta e o acesso para intervenção é limitado.
Essa evolução do conhecimento levou entidades relacionadas ao transporte aéreo e ao transporte internacional de animais, como a International Air Transport Association (IATA) e a International Pet and Animal Transportation Association (IPATA), a desaconselhar a sedação rotineira para controle comportamental durante viagens aéreas. A discussão, portanto, deixou de se concentrar apenas em como reduzir a atividade do animal durante o transporte e passou a incluir como prepará-lo para enfrentar a jornada com menor medo, ansiedade e estresse.
Nesse contexto, diferentes estratégias passaram a receber maior atenção. Preparação e adaptação prévias, condicionamento à caixa ou bolsa de transporte, dessensibilização, manejo adequado e acompanhamento podem ser associados, quando necessário, a outras possibilidades, como feromônios, nutracêuticos, fitoterápicos, aromaterapia, homeopatia, florais e medicamentos com finalidade ansiolítica. Essas alternativas oferecem diferentes possibilidades e devem ser consideradas de acordo com a espécie, as características individuais do animal e as condições da jornada. Entretanto, ainda são necessários mais estudos e pesquisas específicos sobre sua utilização no transporte aéreo de cães e gatos, tanto para ampliar o conhecimento sobre as alternativas existentes quanto para desenvolver novas possibilidades.
O transporte aéreo também apresenta diferenças importantes entre as modalidades PETC, AVIH e Manifest Cargo. A presença ou ausência de acompanhante, possibilidade de observação e manejo, tempo de separação do tutor e etapas operacionais modificam as condições às quais o animal será submetido. Por esse motivo, decisões relacionadas à preparação e ao manejo não devem considerar apenas o animal, mas também a viagem que ele efetivamente realizará.
Sob a perspectiva do Bem-Estar Preventivo, o objetivo é identificar antecipadamente fatores capazes de comprometer o bem-estar e atuar antes que o problema ocorra. Essa abordagem exige integração entre o conhecimento do tutor sobre seu animal, a avaliação clínica e comportamental realizada pelo médico-veterinário e o conhecimento técnico das condições reais do transporte.
Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo analisar os riscos relacionados à sedação no transporte aéreo de cães e gatos, compartilhar o conhecimento disponível e apresentar alternativas para redução do medo, da ansiedade e do estresse que possam contribuir para um transporte mais seguro, considerando a preservação da saúde e da vida do animal, suas características individuais e as condições operacionais da jornada. Busca-se também estimular novos estudos e pesquisas que permitam desenvolver estratégias cada vez mais eficazes e com menores riscos para os animais transportados.
2 Revisão da Literatura
2.1 Estresse, medo e ansiedade no transporte aéreo
O transporte representa uma mudança importante na rotina de cães e gatos. Antes mesmo do voo, o animal pode ser exposto a diferentes estímulos, como permanência na caixa ou bolsa de transporte, deslocamento até o aeroporto, movimentação de pessoas, ruídos, odores desconhecidos, procedimentos de embarque e mudanças sucessivas de ambiente. A intensidade da resposta a esses estímulos varia de acordo com a espécie, o indivíduo, suas experiências anteriores, condição clínica, comportamento, grau de adaptação ao transporte e características da própria viagem.
Medo, ansiedade e estresse são respostas relacionadas, mas não devem ser considerados sinônimos. O medo ocorre diante da percepção de uma ameaça presente. A ansiedade está relacionada à antecipação de uma situação percebida como ameaçadora ou imprevisível. O estresse envolve as respostas comportamentais e fisiológicas utilizadas pelo organismo para se adaptar a uma situação que desafia seu equilíbrio.
Durante o transporte aéreo, essas respostas podem ser desencadeadas não apenas pelo voo, mas pelo conjunto da jornada. Em estudo experimental com cães transportados em kennels no compartimento de carga de uma aeronave, os procedimentos de carregamento e descarregamento foram os momentos de maior aumento da frequência cardíaca. Os autores relacionaram essa resposta à mudança de ambiente e ao manuseio associado a essas etapas. Esse resultado refere-se ao transporte no porão e não deve ser automaticamente extrapolado para animais transportados acompanhados na cabine. O estudo demonstra, entretanto, que a avaliação do estresse no transporte aéreo deve considerar não apenas o período de voo, mas também as diferentes etapas e formas de manejo que compõem a jornada.
A resposta ao transporte também apresenta diferenças individuais importantes. Alguns animais permanecem aparentemente tranquilos, enquanto outros podem apresentar vocalização, agitação, tentativas de fuga, tremores, salivação, alterações respiratórias, eliminação de urina ou fezes, recusa de alimento e água ou comportamento de imobilidade. A ausência de agitação, entretanto, não permite concluir isoladamente que o animal não esteja com medo, ansioso ou estressado.
Por esse motivo, o objetivo da preparação para uma viagem aérea não deve ser simplesmente reduzir a movimentação ou tornar o animal menos responsivo. O objetivo deve ser reduzir, sempre que possível, os fatores capazes de provocar medo, ansiedade e estresse, preservando sua capacidade de manter postura,
equilíbrio, respostas fisiológicas e comportamentos compatíveis com uma viagem segura.
Essa distinção é fundamental para compreender a discussão sobre sedação no transporte aéreo. Um animal sedado pode apresentar menor atividade motora sem que a causa do medo ou da ansiedade tenha sido necessariamente controlada. A escolha da estratégia de manejo deve, portanto, considerar não apenas aquilo que o observador percebe externamente, mas também o bem-estar e a segurança do animal durante toda a jornada.
2.2 Sedação, tranquilização e ansiolíticos: conceitos e efeitos
diferentes
Sedação, tranquilização e ansiolíticos são termos frequentemente utilizados como se representassem o mesmo efeito, mas correspondem a objetivos diferentes. Essa distinção é especialmente importante no transporte aéreo, porque reduzir a atividade ou a capacidade de reação de um animal não significa necessariamente reduzir seu medo ou ansiedade.
A sedação produz redução do estado de alerta e da atividade motora em diferentes intensidades. Dependendo do medicamento, da dose e da resposta individual, pode provocar sonolência, diminuição da coordenação, alterações posturais e menor capacidade de resposta aos estímulos. Estes efeitos exigem atenção e monitoramento, principalmente quando o animal permanece por longos períodos sem possibilidade de avaliação veterinária direta.
A tranquilização tem como objetivo diminuir a atividade e a resposta do animal aos estímulos externos. Entretanto, alguns tranquilizantes podem produzir aparente calma principalmente pela redução da atividade motora, sem controlar adequadamente o medo ou a ansiedade. A acepromazina é um exemplo importante. Embora tenha sido historicamente utilizada em cães e gatos para tranquilização, apresenta propriedades ansiolíticas limitadas e pode reduzir manifestações comportamentais sem necessariamente controlar adequadamente o medo ou a ansiedade.
Os ansiolíticos têm outro objetivo: reduzir medo e ansiedade preservando, tanto quanto possível, o estado de consciência, a coordenação e a capacidade do animal de responder adequadamente ao ambiente. Por esse motivo, o uso de um medicamento com finalidade ansiolítica não deve ser automaticamente considerado equivalente à sedação. Entretanto, essa diferença de finalidade não significa ausência de efeitos adversos. Alguns medicamentos utilizados para controle da ansiedade também podem produzir sonolência, sedação, alterações de coordenação ou respostas individuais inesperadas.
No transporte aéreo, essa distinção possui importância prática. O objetivo não deve ser simplesmente manter o animal quieto, mas reduzir medo, ansiedade e estresse sem comprometer desnecessariamente sua capacidade de manter postura, equilíbrio e respostas fisiológicas e comportamentais adequadas.
A escolha de qualquer intervenção farmacológica deve considerar espécie, idade, condição clínica, comportamento, histórico individual, duração e características da viagem, possíveis efeitos adversos e regras aplicáveis ao transporte. Medicamentos destinados ao controle da ansiedade devem ser prescritos pelo médico-veterinário após avaliação individual, e sua resposta deve ser conhecida antes da viagem sempre que o protocolo utilizado permitir essa avaliação prévia.
2.3 Por que a sedação no transporte aéreo é desaconselhada
A preocupação com o uso de sedativos e tranquilizantes no transporte aéreo não é recente. Ela está relacionada aos possíveis efeitos desses medicamentos em animais submetidos a uma jornada prolongada e às diferentes possibilidades de observação e intervenção existentes em cada modalidade de transporte. No AVIH e no Manifest Cargo, o animal permanece separado do tutor ou responsável durante parte significativa da jornada. No PETC, permanece acompanhado na cabine por seu tutor ou por pessoa por ele indicada, permitindo observação direta e, quando o acompanhante possui conhecimento adequado, a utilização de medidas de manejo destinadas a reduzir o estresse durante as etapas em que o acesso ao animal é permitido.
Estudos realizados em condições de transporte aéreo ajudam a compreender essa preocupação. Bergeron et al. avaliaram 24 cães da raça Beagle transportados no compartimento de carga de uma aeronave, comparando animais que receberam acepromazina com animais não sedados. Nas condições avaliadas, a acepromazina não reduziu significativamente as respostas fisiológicas ou comportamentais de estresse. O estudo apresenta limitações, especialmente o intervalo maior que o previsto entre a administração do medicamento e a decolagem, e seus resultados não devem ser extrapolados para outras modalidades de transporte, espécies, medicamentos ou protocolos.
Além da possibilidade de não controlar adequadamente medo e ansiedade, sedativos e tranquilizantes podem produzir alterações de atividade motora, equilíbrio, postura e capacidade de resposta, além de efeitos cardiovasculares e respiratórios que variam conforme o medicamento, a dose e a resposta individual. Essas alterações assumem importância particular quando ocorrem durante uma viagem na qual o animal não pode ser continuamente observado ou prontamente avaliado por um médico-veterinário.
Outro aspecto relevante é que o tempo de voo não corresponde necessariamente ao tempo total de transporte. No AVIH, devem ser considerados a antecedência exigida para o check-in, o período em que o animal permanece sob responsabilidade da cadeia operacional, o handling, carregamento e descarregamento, eventuais conexões e o tempo necessário até sua restituição ao responsável. No Manifest Cargo, procedimentos de aceitação no terminal de cargas, handling, conexões e, conforme a viagem, procedimentos aduaneiros e sanitários podem ampliar ainda mais essa jornada. Assim, um voo de determinada duração pode representar um período total de transporte significativamente maior.
Essa diferença é particularmente importante quando medicamentos são considerados. O médico-veterinário pode conhecer a duração prevista do voo, mas não necessariamente todas as etapas e os tempos envolvidos na operação. Por outro lado, o profissional responsável pelo planejamento do transporte conhece a rota e os procedimentos operacionais, mas não possui atribuição para avaliar clinicamente o animal ou prescrever medicamentos. A integração dessas informações permite que a avaliação seja realizada considerando a jornada real, e não apenas o período entre decolagem e pouso.
A modalidade escolhida também modifica as possibilidades de acompanhamento. No PETC, o tutor ou pessoa por ele indicada permanece próximo ao animal e pode contribuir para a redução do estresse, especialmente quando têm conhecimento adequado. A presença de um acompanhante, entretanto, não representa necessariamente acompanhamento técnico. O conhecimento sobre comportamento, sinais de estresse, manejo e primeiros socorros pode variar significativamente entre os acompanhantes.
Existem também propostas de acompanhamento realizado por profissionais especificamente capacitados para o transporte de animais. Entre elas encontra-se o Especialista Técnico em Transporte Animal (ETTA), modelo desenvolvido pela Transporte Pet Internacional e posteriormente inserido no conceito de Bem-Estar Preventivo. O ETTA recebe capacitação direcionada ao transporte, incluindo etologia aplicada ao manejo de baixo estresse, primeiros socorros e protocolos relacionados à preparação e ao acompanhamento da jornada. Sua atuação não substitui a avaliação ou a prescrição do médico-veterinário, mas acrescenta acompanhamento técnico às etapas nas quais permanece com o animal.
A disponibilidade de assistência também varia conforme aeroporto, companhia aérea, rota e modalidade de transporte. Existem operações especializadas de transporte de animais vivos que dispõem, em determinados aeroportos, de infraestrutura própria e assistência veterinária. Essa estrutura está disponível em solo e não representa assistência veterinária durante o voo, além de não estar presente em todas as operações. Por esse motivo, a possibilidade de atendimento veterinário durante uma eventual intercorrência não deve ser presumida no planejamento da viagem.
Por essas razões, a IATA desaconselha o uso de sedativos ou tranquilizantes especificamente para prevenir pânico ou controlar o comportamento durante o transporte aéreo. A IPATA também não recomenda sedativos ou tranquilizantes para pets em viagens aéreas e orienta a utilização de estratégias alternativas para redução do medo, da ansiedade e do estresse. A World Organisation for Animal Health (WOAH) também considera que a sedação durante o transporte aéreo apresenta riscos e destaca que tranquilizantes podem reduzir a capacidade do animal de responder ao estresse, além de produzir respostas individuais nem sempre previsíveis.
Sob a perspectiva do Bem-Estar Preventivo, a decisão não deve começar pela pergunta sobre como manter o animal quieto durante a viagem, mas pela identificação antecipada dos fatores que podem provocar medo, ansiedade, estresse ou representar riscos à sua saúde. Isso inclui avaliação clínica e comportamental, adaptação à caixa ou bolsa de transporte, modalidade escolhida, presença ou ausência de acompanhante, qualificação desse acompanhante, rota, duração total da jornada, conexões, procedimentos aeroportuários e possibilidades reais de observação, manejo e intervenção.
A preparação adequada depende, portanto, da participação do tutor, do médico-veterinário e, especialmente nas viagens internacionais ou de maior complexidade, de profissional com conhecimento das condições reais do transporte. Essa integração permite antecipar riscos e escolher estratégias compatíveis com o animal e com a jornada antes do embarque, em vez de buscar soluções somente quando o problema já está presente.
2.4 Riscos fisiológicos e operacionais da sedação no transporte
aéreo
Os riscos relacionados à sedação durante o transporte aéreo dependem do medicamento utilizado, da dose, da espécie, da idade, da condição clínica e da resposta individual do animal. Por esse motivo, não é correto atribuir a todos os sedativos os mesmos efeitos ou o mesmo grau de risco. Entretanto, algumas alterações produzidas por determinados fármacos possuem especial importância quando ocorrem durante uma viagem aérea.
Alguns sedativos e tranquilizantes reduzem a atividade motora e podem alterar equilíbrio, coordenação e capacidade de reposicionamento. A acepromazina é um exemplo frequentemente citado no transporte aéreo. Dependendo da dose e da resposta individual, o animal pode apresentar dificuldade para manter postura adequada ou corrigir sua posição dentro da caixa de transporte.
Em ambiente clínico, essas alterações podem ser observadas e acompanhadas. Durante o transporte aéreo, as condições são diferentes. No AVIH e no Manifest Cargo, após a entrega à companhia aérea ou ao operador responsável, o animal passa por etapas de aceitação, espera, movimentação em solo, carregamento e transporte no compartimento da aeronave nas quais o tutor ou acompanhante não possui acesso direto. Durante o voo, não existe possibilidade de retirar o animal do compartimento para avaliá-lo. Uma reação ao medicamento que poderia ser rapidamente identificada, monitorada e tratada em ambiente veterinário pode, portanto, ocorrer sem possibilidade de avaliação ou intervenção imediata.
A redução da atividade também não deve ser interpretada isoladamente como redução do estresse. No estudo de Bergeron et al., cães permaneceram predominantemente inativos durante grande parte do transporte, enquanto indicadores fisiológicos demonstraram resposta de estresse. A aparência de tranquilidade, portanto, não permite concluir que medo, ansiedade ou estresse tenham sido adequadamente controlados.
Determinados sedativos e tranquilizantes podem produzir alterações cardiovasculares, incluindo redução da pressão arterial, além de modificar respostas fisiológicas utilizadas pelo organismo para se adaptar às condições do ambiente. A intensidade desses efeitos varia conforme o fármaco, a dose e o indivíduo.
Alterações respiratórias também merecem atenção, principalmente em animais que já apresentam fatores individuais de risco. A preocupação não deve ser apresentada como consequência inevitável da sedação, mas como possibilidade que precisa ser considerada na avaliação prévia do animal e na escolha do medicamento.
O ambiente aéreo acrescenta uma questão que ainda precisa ser melhor estudada. Durante o voo, mesmo em aeronaves pressurizadas, cães e gatos são submetidos a condições atmosféricas diferentes das encontradas ao nível do mar, incluindo menor pressão atmosférica e menor pressão parcial de oxigênio. Entretanto, ainda são limitados os estudos realizados com cães e gatos em condições reais de transporte aéreo, especialmente aqueles destinados a avaliar suas respostas fisiológicas durante o voo.
Essa limitação também dificulta compreender como sedativos, tranquilizantes e outros medicamentos podem interagir com essas condições. Conhecer os efeitos de um fármaco em ambiente clínico não permite presumir que sua resposta será exatamente a mesma durante uma viagem aérea. São necessários mais estudos específicos para compreender essas interações e seus possíveis riscos nas diferentes espécies, condições clínicas e características individuais.
As condições da jornada também não se limitam ao período em que a aeronave está em voo. No transporte no porão, o animal passa por diferentes etapas antes e depois de permanecer no compartimento climatizado da aeronave, incluindo áreas
de aceitação, espera, movimentação em solo, carregamento e descarregamento. Temperatura e tempo de exposição podem variar conforme o aeroporto, clima, infraestrutura e operação. No PETC, embora o animal permaneça predominantemente em ambientes destinados aos passageiros e acompanhado durante a viagem, também devem ser considerados deslocamentos terrestres, permanência no terminal e condições da bolsa ou caixa de transporte.
Por isso, a avaliação do risco térmico deve considerar a jornada completa e a modalidade utilizada, evitando generalizações sobre cabine ou porão sem conhecimento das condições reais da operação.
A duração da jornada também não é necessariamente previsível com precisão. Atrasos, alterações de conexão, procedimentos aeroportuários e outras ocorrências podem prolongar significativamente o tempo inicialmente previsto. Ao mesmo tempo, a intensidade e a duração do efeito de um medicamento podem variar entre indivíduos.
Essa combinação cria uma dificuldade prática: um protocolo calculado considerando determinado período pode produzir efeito menor ou maior do que o desejado ao longo da jornada. A IATA destaca a dificuldade de estabelecer uma dose capaz de manter determinado efeito durante um período de transporte longo e variável quando existem poucas oportunidades de observação adequada ou de nova administração.
Esse aspecto reforça a importância de o médico-veterinário conhecer não apenas o horário e a duração prevista do voo, mas, sempre que possível, a modalidade de transporte e a duração estimada da jornada completa.
O risco relacionado a um medicamento também depende da capacidade de reconhecer uma eventual reação adversa e obter atendimento quando necessário. Essa possibilidade varia significativamente entre as modalidades de transporte.
No AVIH e no Manifest Cargo, existem períodos da jornada em que o tutor ou acompanhante não possui acesso direto ao animal. No PETC, o animal permanece próximo ao acompanhante, permitindo observação mais frequente e algumas medidas de manejo. Entretanto, estar acompanhado não significa dispor de atendimento médico-veterinário durante o voo. Isso permanece verdadeiro mesmo quando o acompanhamento é realizado por profissional treinado, como no serviço ETTA.
A qualificação do acompanhante pode contribuir para reconhecer alterações no comportamento ou no estado geral do animal e permitir medidas compatíveis com sua capacitação. Um tutor orientado também pode perceber alterações evidentes e procurar ajuda. Nenhuma dessas situações, entretanto, substitui atendimento médico-veterinário quando ele é necessário.
A disponibilidade de assistência veterinária em solo também varia conforme aeroporto, companhia aérea, rota e modalidade de transporte. Existem operações especializadas de transporte de animais vivos que dispõem, em determinados aeroportos, de infraestrutura própria e assistência veterinária. Essa estrutura está disponível em solo e não representa assistência veterinária durante o voo, além de não estar presente em todas as operações. Por esse motivo, a possibilidade de atendimento veterinário durante uma eventual intercorrência não deve ser presumida no planejamento da viagem.
Por isso, a decisão sobre o uso de medicamentos durante uma viagem aérea deve considerar não apenas o efeito esperado, mas também os possíveis efeitos adversos, a resposta individual do animal, a duração total da jornada, a modalidade de transporte e as possibilidades reais de observação, acesso e atendimento em caso de intercorrência. Mesmo quando o medicamento for prescrito pelo médico-veterinário, o tutor deve ser informado sobre os riscos envolvidos e sobre as limitações existentes para atendimento durante o voo, permitindo uma decisão consciente antes da viagem.
2.5 Preparação, condicionamento e manejo para redução do
estresse
A primeira estratégia para reduzir medo, ansiedade e estresse durante uma viagem deve ser, sempre que possível, a preparação prévia do animal para as situações que encontrará durante o transporte. O objetivo não é simplesmente controlar suas reações, mas reduzir antecipadamente os fatores capazes de desencadeá-las. Essa preparação pode incluir adaptação progressiva à caixa ou bolsa de transporte, permanência por períodos gradualmente maiores em seu interior, pequenos deslocamentos e passeios, além da exposição gradual e controlada a movimentos, ruídos e outros estímulos relacionados à viagem.
Cães e gatos apresentam diferenças importantes na forma como percebem e enfrentam situações desconhecidas. Nos cães, a presença e o suporte social de uma pessoa conhecida podem representar importante referência de segurança. Nos gatos, a previsibilidade do ambiente e a existência de um espaço conhecido e protegido assumem maior importância. Por esse motivo, a adaptação prévia à caixa ou bolsa de transporte é especialmente relevante para os felinos, permitindo que ela seja reconhecida como um ambiente familiar e de proteção, e não apenas como uma contenção utilizada no momento da viagem.
O transporte acompanhado pode contribuir para essas duas necessidades de maneiras diferentes. No cão, a presença do tutor ou de um acompanhante pode
oferecer suporte social e permitir manejo durante a jornada. No gato, o acompanhante pode preservar e manejar adequadamente seu espaço de referência, reduzindo intervenções desnecessárias e mantendo, sempre que possível, condições de previsibilidade e segurança. Em ambos os casos, o benefício do acompanhamento também depende do conhecimento do acompanhante sobre comportamento, sinais de estresse e manejo adequado.
O comportamento do tutor também deve ser considerado durante a preparação e o transporte. Cães e gatos podem perceber alterações na postura, no tom de voz, na forma de interação e em outros sinais apresentados pelas pessoas com as quais convivem. Medo, ansiedade ou insegurança do tutor podem modificar sua forma de interagir com o animal e contribuir para aumentar sua insegurança diante de uma situação desconhecida. Por esse motivo, a preparação também deve incluir orientação ao tutor, buscando manter uma interação tranquila, segura e previsível antes e durante a viagem.
Da mesma forma, comportamentos atribuídos ao animal pelo próprio tutor devem ser considerados com cuidado. Expressões como “meu cão é muito ansioso”, “meu gato é estressado” ou “ele não vai suportar a viagem” representam percepções importantes de quem convive com o animal, mas não devem ser consideradas isoladamente como diagnóstico ou como previsão de seu comportamento durante o transporte. A resposta pode variar conforme o ambiente, a situação, a preparação realizada e a interação com as pessoas presentes. Quando houver dúvida ou histórico comportamental relevante, a avaliação de profissional capacitado pode contribuir para um planejamento mais adequado.
A preparação pode ser realizada pelo próprio tutor, quando devidamente orientado, ou com auxílio de profissional capacitado. O condicionamento deve ser progressivo, respeitando a resposta individual do animal e evitando exposições excessivas que possam aumentar o medo ou criar associações negativas. Mudanças relacionadas à viagem devem ser introduzidas de maneira gradual e previsível, evitando que caixa de transporte, alterações de rotina e comportamento diferente do próprio tutor apareçam simultaneamente apenas no momento da partida. A caixa ou bolsa deve fazer parte desse processo antes da viagem e, especialmente para os gatos, pode se tornar uma referência conhecida e protegida durante o transporte.
Sob a perspectiva do Bem-Estar Preventivo, o manejo do medo, da ansiedade e do estresse deve começar antes da viagem, com a identificação das necessidades individuais do animal e dos fatores de estresse presentes na jornada. Preparação, adaptação, condicionamento e manejo devem constituir, sempre que possível, a primeira estratégia, pois atuam antecipadamente sobre a forma como o animal enfrenta as situações relacionadas ao transporte sem depender da administração de substâncias e sem acrescentar uma variável farmacológica às condições fisiológicas da viagem. A integração entre tutor, médico-veterinário e profissional que conhece
as condições reais do transporte permite planejar essas medidas antecipadamente e adequá-las ao animal e à jornada que efetivamente realizará.
2.6 Alternativas para redução do medo, ansiedade e estresse
Existem diferentes recursos utilizados com a finalidade de auxiliar na redução do medo, da ansiedade e do estresse durante a preparação e o transporte de cães e gatos. Entre eles estão feromônios, nutracêuticos, fitoterápicos, aromaterapia, homeopatia, florais e medicamentos ansiolíticos.
Essas alternativas pertencem a categorias diferentes e não devem ser utilizadas de forma indiscriminada. Cães e gatos apresentam particularidades próprias, e animais da mesma espécie também podem responder de maneiras diferentes ao mesmo produto. A escolha deve considerar o indivíduo, sua condição clínica, comportamento, características da viagem e, quando necessário, orientação médico-veterinária.
2.6.1 Feromônios
Os feromônios são substâncias químicas envolvidas na comunicação entre indivíduos da mesma espécie. Produtos veterinários utilizam análogos sintéticos desses sinais químicos com a proposta de favorecer a sensação de familiaridade e segurança em determinadas situações.
Existem formulações específicas para cães e gatos, disponíveis em apresentações como sprays, difusores e coleiras. No contexto da viagem, algumas apresentações permitem utilização no ambiente ou na caixa ou bolsa de transporte, de acordo com as orientações do fabricante. Produtos destinados a cães e gatos não devem ser considerados intercambiáveis, pois reproduzem sinais químicos relacionados à espécie para a qual foram desenvolvidos.
Seu uso pode fazer parte da preparação anterior e do manejo durante a jornada, associado à adaptação à caixa ou bolsa e às demais medidas destinadas à redução do estresse.
2.6.2 Nutracêuticos
Nutracêuticos são produtos derivados de nutrientes ou componentes dos alimentos utilizados com a finalidade de proporcionar benefícios além de sua função nutricional básica. No manejo de situações relacionadas ao medo, ansiedade e estresse em cães e gatos, encontram-se produtos contendo substâncias como α-casozepina e L-teanina.
A α-casozepina é um peptídeo derivado da caseína do leite, enquanto a L-teanina é um aminoácido encontrado naturalmente nas folhas do chá. Esses componentes são encontrados em produtos veterinários destinados ao auxílio no manejo de situações potencialmente estressantes.
Como sua utilização pode exigir início anterior ao evento, o planejamento da viagem permite que o médico-veterinário, quando necessário, avalie sua adequação ao animal e oriente o período e a forma de utilização.
2.6.3 Fitoterápicos e aromaterapia
Produtos de origem vegetal também são utilizados com a proposta de auxiliar no manejo do estresse e da ansiedade. A fitoterapia utiliza preparações obtidas de plantas medicinais, enquanto a aromaterapia emprega compostos aromáticos, frequentemente provenientes de óleos essenciais.
Nesse grupo, é particularmente importante diferenciar cães e gatos. Uma substância de origem natural não é necessariamente adequada para todas as espécies, e concentração, formulação, quantidade e via de exposição podem modificar seus efeitos.
A lavanda é um exemplo relevante. Seus componentes são utilizados em propostas relacionadas ao relaxamento e ao manejo do estresse, mas os gatos apresentam particularidades metabólicas, incluindo menor capacidade de glucuronidação de determinados compostos aromáticos. Por isso, especialmente quando se trata de óleos essenciais concentrados, uma forma de utilização considerada adequada para uma espécie ou situação não deve ser automaticamente aplicada a outra.
Esse exemplo demonstra a importância da orientação veterinária mesmo quando o produto utilizado é de origem natural.
2.6.4 Homeopatia
A homeopatia é uma prática terapêutica baseada, entre outros princípios, na similitude, na individualização e na utilização de preparações obtidas por diluições sucessivas e dinamização. Na Medicina Veterinária, produtos homeopáticos também são utilizados com diferentes finalidades, incluindo situações relacionadas ao comportamento, medo, ansiedade e estresse.
No contexto do transporte aéreo, a homeopatia pode ser considerada entre as possibilidades disponíveis para animais cujos tutores e médicos-veterinários optem por essa abordagem. Sua utilização deve fazer parte do planejamento individual do animal e não substituir a preparação, o condicionamento e o manejo necessários para a viagem.
2.6.5 Florais
Os florais são preparações produzidas a partir de essências de flores e utilizados com a proposta de atuar sobre aspectos emocionais e comportamentais. Existem formulações comercializadas para pessoas e também produtos destinados ao uso em animais.
No contexto de viagens, são utilizados por alguns tutores e profissionais com a finalidade de auxiliar animais que apresentam medo, ansiedade ou dificuldade de adaptação a mudanças e situações desconhecidas.
Assim como nas demais alternativas, a escolha deve considerar o animal individualmente. Também é importante observar a composição completa da apresentação utilizada, pois produtos destinados a pessoas podem conter componentes ou veículos que não foram formulados especificamente para cães ou gatos.
2.6.6 Medicamentos ansiolíticos
Os medicamentos ansiolíticos são fármacos utilizados com a finalidade de reduzir ansiedade e medo. No contexto do transporte aéreo, é importante diferenciar a ansiólise da sedação. Enquanto a ansiólise busca reduzir a resposta de medo e ansiedade, a sedação está relacionada à redução do nível de atividade, consciência ou capacidade de resposta, em intensidade variável conforme o medicamento, a dose e o indivíduo.
Entre os medicamentos utilizados na Medicina Veterinária para situações relacionadas ao medo e à ansiedade estão gabapentina, pregabalina e trazodona. Esses medicamentos devem ser indicados e prescritos por médico-veterinário, que deverá considerar a espécie, a condição clínica, o comportamento, os medicamentos já utilizados e as características individuais do animal.
Mesmo medicamentos utilizados com finalidade ansiolítica podem produzir sonolência, alterações de equilíbrio e coordenação, mudanças de comportamento ou outros efeitos adversos. A resposta também pode variar entre indivíduos, mesmo quando utilizado o mesmo medicamento.
Por esse motivo, quando houver indicação médico-veterinária para utilização de ansiolítico relacionado à viagem, o medicamento e a dose prescritos devem ser testados previamente, com antecedência suficiente para observar a resposta individual do animal antes do transporte aéreo. O dia da viagem não deve ser o primeiro momento em que o animal recebe o medicamento.
A utilização de ansiolíticos no transporte aéreo deve considerar não apenas o efeito desejado, mas também a duração e as condições da jornada, as possibilidades de
observação do animal e as limitações de atendimento caso ocorra uma resposta inesperada.
2.7 Avaliação individual e planejamento prévio
A escolha das estratégias para reduzir medo, ansiedade e estresse durante o transporte aéreo deve partir da avaliação individual do animal e das características reais da viagem. Não existe uma única conduta adequada para todos os cães e gatos. Espécie, idade, condição clínica, comportamento, experiências anteriores, resposta à caixa ou bolsa de transporte, medicamentos em uso e histórico de reações a medicamentos ou outros produtos são algumas das variáveis que devem ser consideradas.
As estratégias apresentadas neste artigo também não precisam ser compreendidas como escolhas isoladas. Dependendo das características do animal, diferentes medidas podem fazer parte de uma mesma preparação. Condicionamento, manejo, acompanhamento, feromônios ou outras alternativas podem ser associados de acordo com as necessidades individuais e com a orientação profissional correspondente.
A resposta a essas estratégias também pode variar. Existem diferenças entre espécies, mas indivíduos da mesma espécie, e até da mesma raça, podem responder de maneiras diferentes ao mesmo produto ou intervenção. Uma experiência positiva com determinado produto em um animal não significa que o mesmo resultado ocorrerá em outro.
A facilidade de acesso a um produto também não significa que ele seja adequado para qualquer animal. Medicamentos, suplementos, fitoterápicos, produtos naturais e outros recursos podem ser adquiridos em pet shops, lojas, farmácias ou pela internet e, muitas vezes, são utilizados por indicação de vendedores, amigos, outros tutores ou a partir de informações obtidas em sistemas de inteligência artificial. Essas recomendações não substituem a avaliação individual e podem não considerar espécie, idade, condição clínica, medicamentos em uso, histórico individual ou características da viagem.
Produtos e substâncias também não devem ser utilizados indistintamente entre cães e gatos. Uma substância utilizada com determinada finalidade em uma espécie pode não ser adequada para outra. Mesmo produtos considerados naturais podem provocar respostas diferentes entre indivíduos, incluindo sensibilidade, intolerância ou reações alérgicas. Quando a alternativa escolhida puder produzir efeitos fisiológicos ou apresentar riscos para o animal, a participação do médico-veterinário é fundamental.
A modalidade de transporte também modifica as condições da jornada. PETC, AVIH e Manifest Cargo apresentam diferenças quanto à presença ou ausência de acompanhante, manejo, tempo de separação do tutor, acesso ao animal e etapas operacionais. Da mesma forma, a duração do voo não corresponde necessariamente à duração total da jornada. Check-in ou aceitação antecipada, handling, espera, conexões, procedimentos sanitários e aduaneiros podem ampliar significativamente o período de transporte. Essas informações precisam fazer parte do planejamento e ser conhecidas, sempre que possível, pelo médico-veterinário responsável pela avaliação do animal.
A orientação anterior à viagem ainda apresenta uma lacuna importante. No estudo de Jahn et al., realizado com 635 tutores de cães que haviam realizado viagens aéreas, mais da metade não procurou orientação profissional antes da viagem. Esse dado reforça a necessidade de preparação antecipada e de maior integração entre tutor, médico-veterinário e profissional especializado em transporte.
O médico-veterinário possui papel fundamental na avaliação clínica e comportamental e na indicação e prescrição de medicamentos quando necessárias. O profissional especializado em transporte, por sua vez, pode fornecer informações sobre modalidade, rota, procedimentos, duração prevista e condições às quais o animal será submetido. O tutor acrescenta informações importantes sobre comportamento, rotina, experiências anteriores e respostas habituais de seu animal. Essas informações são complementares e sua integração permite um planejamento mais adequado à realidade de cada animal e de cada viagem.
A avaliação deve ocorrer com antecedência suficiente para permitir adaptação à caixa ou bolsa, condicionamento, mudanças de manejo e escolha das estratégias que serão utilizadas. Sempre que aplicável, medicamentos, suplementos, fitoterápicos, produtos naturais ou outras substâncias destinadas a produzir efeito no animal devem ser utilizados previamente, com orientação adequada e antecedência suficiente para conhecer sua resposta individual. A viagem não deve ser o momento da primeira utilização de um produto ou substância no animal.
O planejamento prévio permite que as decisões sejam tomadas antes que o animal esteja exposto às condições da viagem. Sob a perspectiva do Bem-Estar Preventivo, conhecer o animal, conhecer a jornada e antecipar os fatores de risco permite atuar antes que o problema ocorra, em vez de depender apenas de intervenções durante ou após uma situação de estresse.
3 METODOLOGIA
Este trabalho foi desenvolvido por meio de revisão da literatura e análise técnico-aplicada sobre o manejo do medo, da ansiedade e do estresse em cães e
gatos durante o transporte aéreo. Foram consultados artigos científicos, revisões, diretrizes médico-veterinárias e documentos técnicos relacionados ao comportamento animal, sedação, ansiedade, transporte e bem-estar de cães e gatos.
Foram considerados também documentos e orientações de organismos relacionados ao transporte e à saúde animal, incluindo a International Air Transport Association (IATA), a International Pet and Animal Transportation Association (IPATA) e a World Organisation for Animal Health (WOAH), distinguindo-se recomendações institucionais de resultados provenientes de estudos científicos.
A revisão incluiu estratégias utilizadas na preparação e no manejo dos animais, como adaptação à caixa ou bolsa de transporte, condicionamento, manejo de baixo estresse e acompanhamento durante a jornada. Foram também pesquisadas alternativas utilizadas para auxiliar na redução do medo, da ansiedade e do estresse, incluindo feromônios, nutracêuticos, fitoterápicos, aromaterapia, homeopatia, florais e medicamentos com finalidade ansiolítica.
A análise considerou diferenças entre cães e gatos, respostas individuais, possíveis efeitos adversos e as condições relacionadas às diferentes modalidades e etapas do transporte aéreo. Quando os estudos disponíveis se referiam a situações diferentes do transporte aéreo, como transporte terrestre ou atendimento veterinário, essa limitação foi considerada na interpretação dos resultados.
O objetivo da revisão não foi estabelecer qual alternativa apresenta maior eficácia ou definir um protocolo único para todos os animais, mas reunir informações relevantes para a compreensão dos riscos da sedação e das diferentes estratégias que podem ser consideradas na preparação e no manejo de cães e gatos durante viagens aéreas, priorizando o bem-estar animal, a prevenção de riscos e a preservação da saúde e da segurança ao longo de toda a jornada.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise da literatura demonstra que o manejo do medo, da ansiedade e do estresse no transporte aéreo de cães e gatos não deve ser limitado à decisão de sedar ou não o animal. A viagem envolve diferentes etapas e estímulos, e a resposta a essas condições varia conforme espécie, indivíduo, experiências anteriores, condição clínica, modalidade de transporte e características da jornada.
A recomendação de evitar a sedação rotineira no transporte aéreo está relacionada aos efeitos que determinados sedativos e tranquilizantes podem produzir sobre equilíbrio, postura, capacidade de resposta e funções fisiológicas. Esses efeitos assumem maior importância em situações nas quais o animal permanece sem
observação direta e o acesso para avaliação ou intervenção pode ser limitado. Além disso, menor atividade ou aparente tranquilidade não significam necessariamente ausência de medo, ansiedade ou estresse.
Os achados também mostram que o tempo de voo representa apenas parte da jornada. No AVIH e no Manifest Cargo, o período total pode incluir aceitação antecipada, espera, handling, transporte em solo, carregamento, conexões, descarregamento e procedimentos sanitários ou aduaneiros. No PETC, embora o animal permaneça acompanhado durante grande parte do percurso, também existem etapas anteriores e posteriores ao voo. Dessa forma, qualquer planejamento deve considerar a jornada completa e não apenas o período dentro da aeronave.
A preparação anterior ao embarque aparece como elemento central desse processo. Adaptação à caixa ou bolsa, condicionamento progressivo, pequenos deslocamentos e exposição controlada aos estímulos relacionados à viagem permitem preparar o animal antes da situação real. As diferenças comportamentais entre cães e gatos também precisam ser consideradas. Nos cães, o suporte social proporcionado por uma pessoa pode representar importante referência; nos gatos, um ambiente conhecido e protegido, como uma caixa ou bolsa previamente familiarizada, pode assumir papel relevante durante a jornada.
O transporte acompanhado acrescenta a possibilidade de observação e manejo durante parte significativa da viagem. Entretanto, presença e acompanhamento técnico não são necessariamente equivalentes. O conhecimento sobre comportamento, sinais de estresse, manejo de baixo estresse e primeiros socorros amplia os recursos disponíveis durante a jornada. Nesse contexto, modelos de acompanhamento técnico, como o ETTA, representam uma proposta de integração entre conhecimento do transporte, manejo e observação do animal, sem substituir a atuação médico-veterinária.
Além da preparação, do condicionamento e do manejo, diferentes alternativas podem ser consideradas para auxiliar na redução do medo, da ansiedade e do estresse. Feromônios, nutracêuticos, fitoterápicos, aromaterapia, homeopatia, florais e medicamentos ansiolíticos representam possibilidades distintas, que podem ser consideradas isoladamente ou associadas conforme as características do animal e a orientação profissional necessária em cada caso. A diversidade dessas alternativas reforça que não existe uma única estratégia aplicável a todos os animais.
A análise dessas possibilidades evidencia também a importância de diferenciar espécies e indivíduos. Uma substância utilizada em cães não deve ser automaticamente considerada adequada para gatos, e animais da mesma espécie podem apresentar respostas diferentes ao mesmo produto. O exemplo da lavanda demonstra que a classificação de uma alternativa como natural não elimina a
necessidade de considerar espécie, composição, concentração e forma de utilização. O mesmo princípio se aplica aos medicamentos, nos quais respostas individuais e efeitos adversos também podem ocorrer.
No caso dos ansiolíticos, a distinção entre redução da ansiedade e sedação assume particular importância. O objetivo da intervenção não deve ser simplesmente diminuir a atividade do animal, mas controlar o medo e a ansiedade preservando, tanto quanto possível, equilíbrio, postura e capacidade de resposta. Como a reação individual aos medicamentos pode variar, a avaliação médico-veterinária e o conhecimento prévio da resposta do animal, quando aplicável, tornam-se especialmente relevantes antes de uma viagem aérea.
Outro resultado importante da revisão é a necessidade de maior integração entre os envolvidos na preparação. O tutor fornece informações importantes sobre o comportamento, a rotina e o histórico do animal; o médico-veterinário possui competência para sua avaliação clínica e para a indicação de intervenções farmacológicas quando necessárias; e o profissional especializado em transporte conhece modalidade, rota, procedimentos e condições operacionais da jornada. Nenhum desses conhecimentos, isoladamente, reúne todas as informações necessárias para o planejamento.
A participação do tutor também deve ser considerada como parte da preparação. Seu estado emocional e sua forma de interagir com o animal podem influenciar a resposta diante de situações desconhecidas. Ao mesmo tempo, percepções do tutor sobre o comportamento do próprio animal são informações importantes, mas classificações como “ansioso”, “estressado” ou “difícil” não devem, isoladamente, ser consideradas diagnóstico ou utilizadas para prever sua resposta durante a viagem. Orientar o tutor e considerar essas informações em conjunto com a avaliação individual do animal também fazem parte do planejamento preventivo.
A facilidade de acesso a produtos e informações também reforça a necessidade de avaliação individual. Recomendações genéricas, independentemente de sua origem, não consideram necessariamente espécie, condição clínica, possíveis interações, histórico de reações e características específicas da viagem. A informação disponível não deve ser confundida com avaliação individual do animal.
Os resultados desta revisão apontam, portanto, para uma mudança de abordagem. Em vez de concentrar a atenção apenas em como controlar o animal durante a viagem, o planejamento deve começar pela identificação antecipada dos fatores capazes de produzir medo, ansiedade e estresse. Preparação, condicionamento e manejo constituem a base; outras estratégias podem ser associadas de acordo com as características individuais do animal e as condições da jornada.
Sob a perspectiva do Bem-Estar Preventivo, conhecer o animal, compreender a jornada e antecipar os fatores de risco permite ampliar as possibilidades de
prevenção antes do embarque, reduzindo a dependência de intervenções realizadas somente quando o problema já está presente.
5 CONCLUSÃO
A sedação não deve ser considerada um procedimento de rotina para facilitar o transporte aéreo de cães e gatos. Seus possíveis efeitos assumem especial importância em uma jornada na qual o animal pode permanecer por períodos sem acesso direto, sem monitoramento clínico contínuo e, durante o voo, sem possibilidade de atendimento médico-veterinário imediato. Diante dessas limitações e das lacunas ainda existentes sobre as respostas fisiológicas de cães e gatos às condições reais do transporte aéreo, sua utilização deve ser reservada a situações específicas, após avaliação individual e indicação do médico-veterinário.
Cães e gatos ocupam hoje uma posição cada vez mais próxima das famílias e dependem das decisões tomadas por seus responsáveis. A utilização de medicamentos, suplementos ou outras substâncias é uma intervenção humana, e não uma escolha do animal. Por esse motivo, a tentativa de reduzir medo, ansiedade ou estresse durante uma viagem não deve criar riscos desnecessários à sua saúde e segurança. O bem-estar e a preservação da vida devem permanecer como prioridades em qualquer decisão relacionada ao transporte.
A participação do médico-veterinário é fundamental sempre que houver indicação de medicamentos. A escolha do fármaco, dose e forma de utilização deve considerar espécie, idade, condição clínica, comportamento, medicamentos em uso, resposta individual e características da jornada. Mesmo quando prescrito, o tutor deve conhecer os possíveis efeitos adversos e compreender as limitações existentes para atendimento caso ocorra uma intercorrência durante o voo.
Recomendações de vendedores, amigos, outros tutores, experiências anteriores com outros animais ou informações fornecidas por sistemas de inteligência artificial não substituem a avaliação médico-veterinária. O fato de determinado produto ter apresentado resultado satisfatório em um animal não significa que seja adequado ou seguro para outro. Cada indivíduo pode responder de maneira diferente, e assumir esse risco durante uma viagem aérea, quando as possibilidades de avaliação e intervenção são limitadas, pode produzir consequências que poderiam ter sido evitadas.
Sempre que aplicável, medicamentos, suplementos, fitoterápicos, produtos naturais ou outras substâncias destinadas a produzir efeito no animal durante a viagem devem ser utilizados previamente, com antecedência suficiente e orientação adequada, para que sua resposta individual possa ser conhecida antes do
transporte. Mesmo produtos considerados naturais podem provocar respostas diferentes entre indivíduos, incluindo sensibilidade, intolerância ou reações alérgicas. Essas diferenças podem ocorrer inclusive entre animais da mesma espécie ou raça. Por esse motivo, a viagem não deve ser o momento da primeira utilização de qualquer produto ou substância no animal.
Preparação antecipada, adaptação à caixa ou bolsa, condicionamento, dessensibilização e manejo adequado apresentam uma característica importante: permitem trabalhar previamente a resposta do animal às situações relacionadas ao transporte sem acrescentar uma variável farmacológica às condições fisiológicas da viagem. Por isso, sempre que possível, devem constituir a primeira estratégia para redução do medo, da ansiedade e do estresse.
As demais alternativas apresentadas neste artigo ampliam os recursos que podem ser considerados de acordo com cada animal e cada jornada, sem que uma única estratégia possa ser considerada adequada para todos. A individualidade deve permanecer no centro das decisões.
Por fim, a limitada disponibilidade de estudos específicos sobre cães e gatos em condições reais de transporte aéreo demonstra a necessidade de ampliar as pesquisas nessa área. Conhecer melhor os efeitos da menor pressão atmosférica, da menor pressão parcial de oxigênio e das demais condições da jornada, assim como suas possíveis interações com medicamentos e outras substâncias, poderá contribuir para estratégias cada vez mais seguras e eficazes. Compartilhar conhecimento, estimular novas pesquisas e priorizar a prevenção de riscos são caminhos necessários para que a evolução do transporte aéreo de animais seja acompanhada pela evolução do cuidado com aqueles que transportamos.
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